Não ando de Metro. Não é por fobia. Talvez por comodismo, admito. Sou mais autónoma com o carro. É certo que tenho mais dívidas ao Estado, à conta das multas que não pago, por esquecimento ou algum descrédito pelas instituições que já me sugam tanto dinheiro em impostos. Levem-me presa, pronto!
Adiante। Não ando de Metro. Porém, um destes dias, por força das circunstâncias, lá fui em busca da cor da linha certa (uma confusão!) e entrei numa carruagem para uma curta viagem. Havia lugar. Boa! Sentei-me e na minha frente descubro uma pérola para a minha imaginação. Discreta, cabisbaixa, uma mulher de olheiras profundas, fingia que dormia. Indiferente, ausente, em standby. Tinha esse direito, pensei eu. Não conseguia tirar os olhos dela. Por defeito de formação, comecei a tentar adivinhar a vida que levaria. De onde viria, para onde iria.
Era nova. 30 anos talvez, não mais. Vestia-se “à moda” tanto quanto os vendedores ambulantes a entendem. Limpa de maquilhagem. Gasta e algo cinzenta. No dedo uma aliança finíssima. Ouro talvez. Gasta. A testemunhar aquilo que imaginei ser uma relação igualmente desgastada. Algo cinzenta.
Abriu os olhos! Não baixei os meus. Mexeu nervosa na aliança e suspirou. Aí estava a prova que as minhas conjecturas estariam certas. Relação complicada. A roçar a indiscrição, procurei mais pormenores de vida. Encontrei círculos negros no antebraço esquerdo. Violência? Ui... a partir daí as ideias voaram e na cabeça desenhei o que seria o seu “grito de ajuda”, em jeito de reflexão. Na primeira pessoa. Na pele dela.
Este artigo é pura ficção. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência:
Barricados em casa
“Às vezes vêm-me à cabeça as cenas finais do filme de De Vito, A Guerra das Rosas. O casal em demanda — Michael Douglas e Kathleen Turner — leva a sua fúria até ao limite do racional e os dois acabam por morrer estatelados no chão do hall de entrada, vítimas da sua própria armadilha. Parece que os estou a ver pendurados no gigantesco lustre prestes a desprender-se do tecto e ainda assim irados, odientos, sequiosos de atacar o outro. E dou graças a Deus por não ter recursos que me permitam daqueles cintilantes luxos. Estou a ver-me amarrada aos berloques de cristal, amordaçada, enquanto ele — o homem com quem vivo há anos — se deleita com a perspectiva de me ver sofrer.
Ao reler estas últimas linhas admito-as exageradas, fruto do cansaço provocado por muitos anos a tentar erguer uma relação que há muito rasteja.
Quando o conheci, no meio das luzes difusas e do batuque da discoteca, pareceu-me um príncipe saído da neblina. A nossa atracção foi mágica, embora hoje acredite sinceramente que só pode ter sido mau-olhado por parte de alguma amiga invejosa. O que sei é que a macumba pegou e meia dúzia de dias depois estávamos a viver debaixo do mesmo tecto. Admito que felizes...
Mas de há três anos para cá, parece que se partiu a corda da nossa relação e deixámos de estar sintonizados. Agora cada um ruma para seu lado e o pior é que às vezes chocamos.
Começámos a desentender-nos quando perdi o emprego. Até reconheço o meu feitio belicoso, admito que não gosto de ordens nem de gente empinada e, para meu azar, os patrões que me têm saído na rifa encaixam que nem ginjas no perfil dos palermas. Mas ele — o tipo com quem vivo há anos — acha que a culpa é minha. Que sou manienta, teimosa, irascível e — imagine-se! — preguiçosa. É preciso ter lata. E não lhe bastava testemunhar a minha angústia de não ter trabalho, o fulano chegava a casa e ainda se atrevia a perguntar pelo jantar. Que falta de sensibilidade! Eu berrava-lhe que não sou criada de servir. Ele devolvia que era minha obrigação, uma vez que estava desocupada. "Vai à merda!", "Vai tu!" A cena acabava sempre com as portas a bater.
Deixei de ir às compras, deixei de cozinhar, deixei de arrumar-lhe as tralhas e, para lhe arrasar os nervos, deixei de passear a cadela dele. Por essa altura deixámos de dialogar. As nossas conversas — quando as tínhamos — não iam além das ofensas em volume máximo. Ele passava os serões na sala a limpar os presentes da Lacie e a jogar playstation. Eu fechava-me no quarto a ler ou aproveitava para ir com o Bull – o meu cão – à rua. Por essa altura comecei a sentir nele os primeiros olhares malignos como quem diz "e não cai um raio que te parta...".
Mil vezes fiz as malas e pensei ir-me embora। Mil vezes tirei os trapos dos sacos por não ter para onde ir. O quarto que deixei na casa dos meus pais estava agora ocupado pelo meu irmão Rui, também ele a viver dias difíceis depois da namorada o ter trocado pelo tipo que lhe arranjava o computador. Estava encurralada. Lentamente o meu desespero foi-se transformando em raiva e decidi ficar. Testar as minhas forças e ver até que ponto as dele aguentavam. E depois, porque carga de água deverei ser eu a deixar uma casa cuja renda ajudei a pagar ao longo de tantos anos? Ele que saia... A verdade é que o tempo vai passando e, nem um nem outro, se decide a ir embora. E não será seguramente por falta de alternativa mas apenas por pura estratégia de guerra.
Sim, estamos assumidamente em pé de guerra desde o dia em que decidimos dividir a casa ao meio. Definimos rigorosamente quais as zonas comuns e quais as interditas. O quarto ficou para mim, já que tenho mais roupa que ele e a mobília é minha. Em troca, cedi-lhe a sala. Com uma condição: o móvel de canto ao pé da janela é meu, bem como o sistema de som ali guardado, logo tenho que ter uma zona de passagem que me permita aceder-lhes. Ao pé do móvel coloquei uma cadeira para poder ouvir música sem precisar invadir-lhe o território. Mas é óbvio que sempre que coloco um CD, ele põe a televisão aos berros e nada feito...
Na cozinha utilizo o fogão de acordo com o horário que estabelecemos previamente. No frigorífico fiquei com as prateleiras de cima. Nos armários, calharam-me os da esquerda. Até as gamelas dos cães foram separadas. A do Bull está agora no meu quarto, a da Lacie está na sala, junto à televisão. Não posso jurar, mas acho que até os animais entraram em litígio. Agora já não brincam nem dormem juntos e já testemunhei uma briga entre os dois. Para meu deleite, o meu cachorro ganhou. A dele meteu o rabo entre as pernas e encolheu-se a um canto, indiferente aos gritos do dono que lhe ordenava que contra-atacasse. Eu rematei, vitoriosa: "A tua cadela herdou o teu carácter cobarde".
Comunicamos através de post-it, trocámos as fechaduras das portas que dão acesso às áreas privadas de cada um, dividimos loiças e talheres, livros, quadros, cacarecos. Quando levo amigos lá a casa envio-lhe uma mensagem escrita e peço-lhe que desampare a loja. Ele faz o mesmo. Digamos que vivemos dia sim, dia não. Um às segundas, quartas e sextas, outro às terças, quintas e sábados. Aos domingos folgamos e cada um vai passar o tempo a casa dos pais.
Nesses dias o pior é o regresso. Quando estaciono o carro à porta de casa, penso sempre que acabei de aterrar numa zona de conflito. Entro receosa que me caia algo em cima. Devagar, pé ante pé, olho para um lado e depois para o outro, até avistar o inimigo. Este está quase sempre entrincheirado atrás da poltrona, com o comando da PS2 na mão. Pela casa ecoam os tiros e os gritos do Medal of Honor, um jogo de estratégia de guerra entre americanos e alemães durante a II Guerra Mundial. Parece que o escolheu a dedo. Durante as infinitas horas que passa sentado à frente do ecrã, vai treinando perícia de tiro, de ataque, vai aniquilando defesas, avançando no terreno. Não é por caso que muitas vezes penso que está a utilizar a mesma táctica na nossa vida. Cada dia que passa acredito que, do outro lado da trincheira, pode vir uma bomba. Isto porque, graças a Deus, não tenho recursos que me permitam ter um cintilante lustre no tecto onde o tipo com quem vivo há anos me poderia pendurar, amarrada, amordaçada. Como no filme A Guerra das Rosas, que tantas vezes me vem à cabeça, acentuando a certeza que enlouqueci. Que deixei há muito de olhar para a realidade com a argúcia dos espíritos tranquilos.
Em momentos mais lúcidos chego a sentir remorso pelas artimanhas que engendro, pelos desejos vingativos que me atravessam a imaginação. Estou a vê-lo humilhado, rendido, a pedir clemência, a pedir que voltemos a ser o que fomos antes, há cem anos atrás, pelas minhas contas. Chego a sentir vergonha por me ver tão má, tão mesquinha, capaz de, à socapa, lhe salgar a sopa, capaz de lhe riscar o carro de cima a baixo. Actos reprováveis que aos olhos do mundo me retiram a razão. E é por volta do momento do acto de contrição que sou tentada a pedir tréguas. Que dou por mim a ceder à vontade de acenar a bandeira branca. E espreito pela ombreira da porta que dá acesso ao território dele. Ensaio um sorriso tímido — sim, que se for muito aberto pode parecer um esgar. Tem de ser coisa subtil, serena, quase inocente. Que lhe inspire ternura. "Olha... e se nós...". Não, isso não. "Nós" é palavra precipitada. De repente, assim do pé para a mão, não podemos ser plural. Não depois do que temos feito um ao outro. E corrijo: "Olha, se eu fizer esparguete, jantas comigo?" Isso! Vou pelo estômago... Sempre ouvi dizer que os homens se prendem por aí, mais do que pelo coração. E quantas vezes, já com um pé em zona inimiga, de avental, me presto à rendição. É sempre por essa altura que ele me pressente: "Que queres tu?", berra, assim de chofre, a chispar ódio pelos olhos. Ah caramba, ferve-me o sangue de tal maneira que chego a ter vontade de me esbofetear por tal fraqueza. E volto a apontar armas. E volto a pensar no desfecho do filme. Trágico.
Chego a temer que a ira me comande os passos e me cegue a sensatez. Outras vezes, estafada, dou por mim a percorrer jornais, à procura de rumo. Mas não se arrepia caminho de um dia para o outro. Dói muito e tem muitos custos.
Nada me pode luir as lágrimas que já derramei por me ver assim enredada nas malhas de uma relação doentia. Nada me apazigua a angústia de ver tudo o que ajudei a construir ser agora milimetricamente dividido. Metade da cozinha, metade da sala, metade dos cães, metade dos amigos, metade da Zélia Duncan, do Caetano, da Betânia, do James Joice, do Steinbeck. E aceitar, de coração resignado, abdicar da metade de mim que ficou com ele. A melhor metade.”
Eis o anúncio da minha estação de saída. Voltei à terra. A protagonista da minha ficção já tinha debandado. Ficou-me a interrogação: seria esta a descrição do seu mundo? Nunca saberei. O que a imaginação faz às pessoas...
quarta-feira, 8 de julho de 2009
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Grande malha! Já tinhas publicado este texto no DN, certo?
ResponderEliminarDaniel